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Luiz Gama: o ex-escravizado que virou advogado e libertou centenas de pessoas

Vendido pelo próprio pai, ele aprendeu a ler sozinho, conquistou a liberdade na Justiça e usou as leis do Império para libertar mais de 500 pessoas.

Por Redação Camadas do Brasil

Publicado em 20 de outubro de 2026

Atualizado em 20 de outubro de 2026

Retrato fotográfico de Luiz Gama, por volta de 1880

Luiz Gama, c. 1880. Autor desconhecido / Wikimedia Commons (domínio público).

Vendido como escravo pelo próprio pai aos dez anos, ele aprendeu a ler sozinho, conquistou a liberdade na Justiça e passou a usar as leis do Império contra a própria escravidão. A história de Luiz Gama ficou décadas fora dos livros escolares.

Uma infância partida

Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, em 21 de junho de 1830. Era filho de Luíza Mahin, uma mulher africana liberta, e de um fidalgo português cujo nome ele nunca revelou. Nasceu livre.

Por volta dos dez anos, porém, foi vendido pelo próprio pai como escravizado — uma venda ilegal, já que ele era livre de nascimento. Levado para o Sul, acabou em São Paulo, onde viveria até o fim da vida.

Retrato fotográfico de Luiz Gama, por volta de 1880
Luiz Gama, c. 1880. Autor desconhecido / Wikimedia Commons (domínio público).

A liberdade conquistada pelas letras

Em São Paulo, Gama aprendeu a ler e a escrever praticamente sozinho. A alfabetização mudou seu destino: aos 17 anos, conseguiu provar na Justiça que havia nascido livre e deixou o cativeiro.

Impedido de cursar regularmente a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco por ser negro, frequentou as aulas como ouvinte e estudou as leis por conta própria. Tornou-se rábula — como eram chamados os advogados sem diploma autorizados a atuar nos tribunais.

Você sabia?

Em 1859, Luiz Gama publicou Primeiras Trovas Burlescas, seu único livro de poemas, em que satirizava a elite branca e o racismo da sociedade imperial.

O advogado dos escravizados

Gama usou as próprias leis do Império contra a escravidão. Um de seus argumentos mais fortes era a lei de 1831, que proibia o tráfico de africanos para o Brasil: quem tivesse chegado depois dela estava sendo mantido em cativeiro ilegalmente.

Em carta autobiográfica ao amigo Lúcio de Mendonça, ele afirmou ter libertado mais de 500 pessoas. Só em um processo, conhecido como a Questão Netto, de 1870, defendeu a liberdade de 217 escravizados. Ao mesmo tempo, escrevia em jornais para explicar à população os seus direitos.

Desenho de Angelo Agostini retratando Luiz Gama
Luiz Gama em desenho de Angelo Agostini, um dos principais caricaturistas da imprensa do Império. Wikimedia Commons (domínio público).

Linha do tempo

  • 1830 Nasce em Salvador, em 21 de junho.
  • c. 1840 É vendido como escravizado pelo próprio pai.
  • c. 1847 Prova na Justiça que nasceu livre.
  • 1859 Publica Primeiras Trovas Burlescas.
  • 1870 Atua na Questão Netto, pela liberdade de 217 pessoas.
  • 1882 Morre em São Paulo, em 24 de agosto.
  • 2015 A OAB lhe concede o título de advogado.
  • 2018 É declarado Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil.

O enterro que parou São Paulo

Luiz Gama morreu em 24 de agosto de 1882, seis anos antes da Lei Áurea. Centenas de pessoas acompanharam o cortejo até o Cemitério da Consolação. Ele não viu a abolição, mas ajudou a torná-la inevitável.

O reconhecimento oficial veio tarde. Em 2015, 133 anos depois de sua morte, a Ordem dos Advogados do Brasil lhe concedeu o título de advogado. Em 2018, foi declarado Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil. Em São Paulo, seu busto no Largo do Arouche foi uma das primeiras homenagens públicas a uma pessoa negra na cidade.

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Fontes e referências

  1. POLITIZE!. Luiz Gama: conheça a história do maior abolicionista do Brasil.
  2. OAB – Conselho Federal. Juristas que marcaram a história do país: Luís Gama.
  3. GAMA, Luiz. Primeiras Trovas Burlescas de Getulino. São Paulo, 1859.
  4. Imagens: Wikimedia Commons (domínio público).