Por quase um século, ele ficou enterrado sob ruas e praças do centro do Rio de Janeiro. Em 2011, obras na zona portuária trouxeram de volta à superfície o principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas — hoje Patrimônio Mundial da Humanidade.
Neste artigo
O porto da dor
No fim do século XVIII, o comércio de africanos escravizados foi transferido do centro da cidade para a região do Valongo, na zona portuária. Em 1811, ali foi construído um cais de pedra para o desembarque. A chegada da corte portuguesa, em 1808, havia multiplicado a demanda por mão de obra escravizada na cidade.
Entre 1811 e 1831, estima-se que entre 500 mil e 1 milhão de africanos tenham desembarcado no Valongo. Ao redor do cais funcionavam armazéns onde as pessoas eram expostas à venda e um cemitério para os que morriam logo após a travessia.

Um cais sobre o outro
Em 1831, uma lei proibiu o tráfico de africanos para o Brasil, e o cais deixou de ser usado oficialmente para esse fim — embora o tráfico clandestino tenha continuado até 1850. Em 1843, o antigo cais foi reformado e embelezado para receber a princesa Teresa Cristina, que chegava para se casar com D. Pedro II. Passou a se chamar Cais da Imperatriz.
A reforma literalmente cobriu o passado: o novo calçamento foi assentado por cima do antigo. Em 1911, durante as reformas urbanas do início do século XX, toda a área foi aterrada e desapareceu da paisagem.
Uma camada literal
As escavações de 2011 revelaram os dois cais sobrepostos: o Cais da Imperatriz, de 1843, construído sobre as pedras do Cais do Valongo, de 1811. É um raro exemplo em que as camadas da história podem ser vistas, uma sobre a outra.
A redescoberta
Em 2011, as obras de revitalização da zona portuária, feitas antes dos Jogos Olímpicos de 2016, encontraram as estruturas dos dois cais. Junto com as pedras, arqueólogos recuperaram amuletos, búzios e objetos de culto ligados a povos da região do Congo, de Angola e de Moçambique — vestígios das pessoas que passaram por ali.

Linha do tempo
- 1811 Construção do Cais do Valongo.
- 1811–1831 Período de maior desembarque de africanos escravizados.
- 1831 Lei proíbe o tráfico; o comércio continua de forma clandestina.
- 1843 O cais é reformado e vira Cais da Imperatriz.
- 1911 A área é aterrada nas reformas urbanas.
- 2011 Escavações redescobrem os dois cais.
- 2017 A UNESCO inscreve o sítio como Patrimônio Mundial.
Patrimônio Mundial e Pequena África
Em julho de 2017, a UNESCO reconheceu o Sítio Arqueológico Cais do Valongo como Patrimônio Mundial, ao lado de lugares como Auschwitz e Hiroshima, que também guardam a memória de grandes tragédias humanas.
O cais fica na região que o sambista e pintor Heitor dos Prazeres chamou de Pequena África: os bairros da Saúde, da Gamboa e do Santo Cristo, ocupados por populações negras, escravizadas ou libertas, e berço de expressões culturais como o samba. Hoje o sítio pode ser visitado ao ar livre, na região da Praça Jornal do Commercio, perto do Boulevard Olímpico.
Fontes e referências
- WIKIPEDIA. Valongo Wharf.
- POLITIZE!. Cais do Valongo: o que foi na história do Brasil?
- UNESCO. Valongo Wharf Archaeological Site. World Heritage List.
- Imagens: Wikimedia Commons (licenças indicadas nas legendas).