Início / Cais do Valongo: as pedras que guardam a memória da escravidão no Rio

Cais do Valongo: as pedras que guardam a memória da escravidão no Rio

Enterrado por quase um século, o principal porto de desembarque de africanos escravizados das Américas voltou à superfície em 2011 e hoje é Patrimônio Mundial.

Por Redação Camadas do Brasil

Publicado em 20 de outubro de 2026

Atualizado em 20 de outubro de 2026

Ruínas de pedra do Cais do Valongo e do Cais da Imperatriz, no centro do Rio de Janeiro

Sítio arqueológico do Cais do Valongo e da Imperatriz, Rio de Janeiro. Foto: Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Por quase um século, ele ficou enterrado sob ruas e praças do centro do Rio de Janeiro. Em 2011, obras na zona portuária trouxeram de volta à superfície o principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas — hoje Patrimônio Mundial da Humanidade.

O porto da dor

No fim do século XVIII, o comércio de africanos escravizados foi transferido do centro da cidade para a região do Valongo, na zona portuária. Em 1811, ali foi construído um cais de pedra para o desembarque. A chegada da corte portuguesa, em 1808, havia multiplicado a demanda por mão de obra escravizada na cidade.

Entre 1811 e 1831, estima-se que entre 500 mil e 1 milhão de africanos tenham desembarcado no Valongo. Ao redor do cais funcionavam armazéns onde as pessoas eram expostas à venda e um cemitério para os que morriam logo após a travessia.

Ruínas de pedra do Cais do Valongo e do Cais da Imperatriz, no centro do Rio de Janeiro
Sítio arqueológico do Cais do Valongo e da Imperatriz. Foto: Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Um cais sobre o outro

Em 1831, uma lei proibiu o tráfico de africanos para o Brasil, e o cais deixou de ser usado oficialmente para esse fim — embora o tráfico clandestino tenha continuado até 1850. Em 1843, o antigo cais foi reformado e embelezado para receber a princesa Teresa Cristina, que chegava para se casar com D. Pedro II. Passou a se chamar Cais da Imperatriz.

A reforma literalmente cobriu o passado: o novo calçamento foi assentado por cima do antigo. Em 1911, durante as reformas urbanas do início do século XX, toda a área foi aterrada e desapareceu da paisagem.

Uma camada literal

As escavações de 2011 revelaram os dois cais sobrepostos: o Cais da Imperatriz, de 1843, construído sobre as pedras do Cais do Valongo, de 1811. É um raro exemplo em que as camadas da história podem ser vistas, uma sobre a outra.

A redescoberta

Em 2011, as obras de revitalização da zona portuária, feitas antes dos Jogos Olímpicos de 2016, encontraram as estruturas dos dois cais. Junto com as pedras, arqueólogos recuperaram amuletos, búzios e objetos de culto ligados a povos da região do Congo, de Angola e de Moçambique — vestígios das pessoas que passaram por ali.

Detalhe das pedras do calçamento original do Cais do Valongo
Detalhe do calçamento do Cais do Valongo. Foto: Caio Clímaco / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Linha do tempo

  • 1811 Construção do Cais do Valongo.
  • 1811–1831 Período de maior desembarque de africanos escravizados.
  • 1831 Lei proíbe o tráfico; o comércio continua de forma clandestina.
  • 1843 O cais é reformado e vira Cais da Imperatriz.
  • 1911 A área é aterrada nas reformas urbanas.
  • 2011 Escavações redescobrem os dois cais.
  • 2017 A UNESCO inscreve o sítio como Patrimônio Mundial.

Patrimônio Mundial e Pequena África

Em julho de 2017, a UNESCO reconheceu o Sítio Arqueológico Cais do Valongo como Patrimônio Mundial, ao lado de lugares como Auschwitz e Hiroshima, que também guardam a memória de grandes tragédias humanas.

O cais fica na região que o sambista e pintor Heitor dos Prazeres chamou de Pequena África: os bairros da Saúde, da Gamboa e do Santo Cristo, ocupados por populações negras, escravizadas ou libertas, e berço de expressões culturais como o samba. Hoje o sítio pode ser visitado ao ar livre, na região da Praça Jornal do Commercio, perto do Boulevard Olímpico.

Compartilhe esta história:WhatsAppFacebookXAssista no YouTube

Fontes e referências

  1. WIKIPEDIA. Valongo Wharf.
  2. POLITIZE!. Cais do Valongo: o que foi na história do Brasil?
  3. UNESCO. Valongo Wharf Archaeological Site. World Heritage List.
  4. Imagens: Wikimedia Commons (licenças indicadas nas legendas).