Série Origem das Cidades — Região dos Lagos · Município: Rio das Ostras (RJ)
O nome já conta a história: antes de ser Rio das Ostras, o rio que corta a cidade se chamava Leripe — “lugar de ostra”, em tupi, segundo o histórico municipal registrado pelo IBGE. Há 4 mil anos, povos pescadores deixaram ali um sambaqui; no século XVII, jesuítas marcaram as terras com pedras; em 1847, D. Pedro II descansou à sombra de uma figueira. Emancipada só em 1992, Rio das Ostras multiplicou sua população com o petróleo de Macaé e virou uma das maiores cidades do litoral fluminense.
Neste artigo
Uma cidade entre a lagoa e o petróleo
Rio das Ostras fica na Costa do Sol, entre Casimiro de Abreu e Macaé. Para o IBGE, pertence à microrregião da Bacia de São João — mas, para quem viaja, é parte da paisagem de praias que se estende da Região dos Lagos até o norte fluminense.
A cidade tem camadas que vão da pré-história ao século XXI: um sambaqui com sepultamentos, marcos jesuíticos, um poço colonial à beira-mar, um arraial de tropeiros e, nas últimas décadas, um dos crescimentos populacionais mais rápidos do estado.
Origem do nome
Segundo o IBGE, a localidade se chamava Leripe — ou Seripe —, palavra que, em tupi, significaria “lugar de ostra”. O documento de formação administrativa associa o termo a um grande molusco. Com o tempo, o nome indígena foi traduzido para o português: Rio das Ostras. Não há registro da data exata dessa troca.
No século XIX, o arraial também ficou conhecido como Baía Formosa. Quem nasce ali é chamado de riostrense, segundo o IBGE Cidades — a forma “rio-ostrense” aparece em outro documento do instituto.
Povos originários e período pré-colonial
A ocupação humana é muito antiga. O Sambaqui da Tarioba, um monte de conchas formado por povos pescadores e coletores, foi ocupado por cerca de 550 anos, entre aproximadamente 4.070 e 3.520 anos antes do presente, segundo datações por carbono-14 publicadas por Felipe Rodrigues e colegas na revista Check List, em 2016. O sítio abriga hoje um museu, com sepultamentos expostos no próprio local da escavação.

Quando os europeus chegaram, a região era habitada por tamoios e goitacás, segundo o IBGE. O documento afirma que a história escrita do lugar começa por volta de 1575, a partir de relatos de navegadores.
Povoamento e fundação histórica
1630: a sesmaria dos jesuítas
Em 20 de novembro de 1630, o capitão-mor governador Martim Correia de Sá doou aos jesuítas uma faixa de terras que incluía a área de Rio das Ostras. Segundo o IBGE, ela foi delimitada por dois marcos de pedra — chamados de pitomas — com a insígnia da Companhia de Jesus: um em Itapebussus e outro na barreta do Rio Leripe.
Poço, igreja e cemitério
Os jesuítas foram responsáveis pelas primeiras construções: o Poço de Pedras do Largo de Nossa Senhora da Conceição, a antiga igreja e o cemitério, erguidos com trabalho de indígenas e de pessoas escravizadas. Com a expulsão da Companhia de Jesus, em 1759, a igreja foi concluída no fim do século XVIII, provavelmente por beneditinos e carmelitas. O templo desabou na década de 1950, sem deixar ruínas, e uma nova igreja foi construída na década seguinte, perto do local original.
O arraial de Baía Formosa
No século XIX, o arraial cresceu em torno da igreja e do poço, de onde jorrava água pura à beira-mar. Era rota de tropeiros e comerciantes a caminho de Macaé e Campos, e chegou a ter internatos masculino e feminino, um Grande Hotel e um posto da polícia provincial, segundo o IBGE.
Povoamento não é emancipação
Apesar da ocupação antiga, Rio das Ostras só ganhou existência administrativa própria no século XX: distrito em 1970, município em 1992. Até então, pertenceu ao distrito de Barra de São João, no município de Casimiro de Abreu.
Emancipação política e legislação
De acordo com a formação administrativa registrada pelo IBGE:
- Decreto-lei nº 225, de 01/03/1970: cria o distrito de Rio das Ostras, desmembrado do distrito de Barra de São João, no município de Casimiro de Abreu;
- Lei estadual nº 1.984, de 10/04/1992: eleva o distrito a município, desmembrado de Casimiro de Abreu;
- Instalação: 1º de janeiro de 1993;
- Lei estadual nº 2.122, de 07/06/1993: altera a redação do artigo 2º da lei de criação.
O aniversário da cidade, 10 de abril, lembra a data da lei de emancipação.
Transformação ao longo do tempo
Da pesca ao turismo
Até meados do século XX, a pesca sustentou a economia local. A construção da Rodovia Amaral Peixoto e a expansão turística da Região dos Lagos trouxeram veranistas e loteamentos, segundo o IBGE.
A cidade-dormitório do petróleo
A grande virada veio com a instalação da Petrobras na região e com a exploração de petróleo na Bacia de Campos, a partir de Macaé. Segundo dissertação da PUC-Rio, o custo alto da moradia em Macaé levou muitos trabalhadores a viver em cidades vizinhas, principalmente em Rio das Ostras, que também passou a receber royalties do petróleo.
Os números impressionam. A cidade tinha cerca de 19 mil habitantes na época da emancipação, segundo a mesma pesquisa, e 36.419 no Censo de 2000. Em 2022, o IBGE contou 156.491 — mais de quatro vezes a população de 2000. O salário médio dos trabalhadores formais, de 3,6 salários mínimos, fica bem acima do registrado nos vizinhos da Região dos Lagos.
População e raio-x atual
- População (Censo IBGE 2022): 156.491 habitantes;
- População estimada (IBGE, 2025): 168.455 habitantes;
- Área territorial (IBGE, 2025): 228,044 km²;
- Densidade demográfica (2022): 686,23 hab/km² — a 13ª maior do estado;
- Salário médio dos trabalhadores formais (2023): 3,6 salários mínimos;
- Gentílico: riostrense · Aniversário: 10 de abril.
Rio das Ostras é o 21º município mais populoso do estado e o maior da Bacia de São João.
Principais pontos turísticos e suas histórias
Praça da Baleia
No bairro de Costa Azul, a praça tem como peça central uma grande escultura de baleia-jubarte, obra de Roberto de Sá e Clara Arthaud, segundo material da prefeitura. O mesmo material registra uma obra em bronze chamada “Baleia Jubarte e o mergulhador”, de 2001 — e, de fato, a figura de um mergulhador aparece junto à baleia. A praça se tornou um dos cartões-postais da cidade.

Poço de Pedras e o centro histórico
O poço atribuído aos jesuítas segue no largo à beira-mar, acompanhado de esculturas de uma antiga moradora tirando água, uma menina e um cachorro. É o ponto mais antigo do núcleo urbano, ao lado da igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Museu de Sítio Arqueológico da Tarioba
O museu foi montado sobre o próprio sambaqui. Os visitantes veem camadas de conchas, artefatos e sepultamentos de povos que viveram ali há cerca de 4 mil anos.
Casa de Cultura Doutor Bento Costa Júnior
A Casa de Cultura reúne móveis, fotografias e objetos que ajudam a contar a história da cidade antes da expansão urbana.

Boca da Barra e a figueira
Na foz do rio, a Praia da Boca da Barra reúne barcos de pesca e um dos entardeceres mais conhecidos da cidade. Perto dali fica a figueira centenária à beira-mar onde, segundo o IBGE, D. Pedro II descansou em 1847.

Curiosidades historicamente verificadas
Um imperador à sombra da figueira
Em 1847, D. Pedro II passou por Rio das Ostras e descansou à sombra de uma figueira à beira-mar, depois de ser recebido com bandas de música e folguedos, segundo os jornais da época citados pelo IBGE.
Marcos de pedra jesuíticos
As terras doadas aos jesuítas em 1630 foram demarcadas com dois marcos de pedra, as pitomas, com a insígnia da Companhia de Jesus — um deles na barreta do antigo Rio Leripe.
Quatro vezes maior em 22 anos
Entre os censos de 2000 e 2022, a população de Rio das Ostras passou de 36.419 para 156.491 habitantes.
Mistérios, mitos e lendas
Jean de Léry em 1510? O histórico municipal reproduzido pelo IBGE cita Jean de Léry, “sapateiro da expedição de Villegagnon”, como visitante em 1510. A data não confere: a França Antártica de Villegagnon foi fundada em 1555, e Léry chegou ao Rio em 1557. A passagem de Léry pela costa é plausível, mas o ano de 1510 é erro.
A igreja dos jesuítas: a tradição atribui toda a antiga igreja aos jesuítas, mas o próprio IBGE registra que ela foi concluída por outras ordens religiosas depois de 1759. E não sobrou nada dela: o templo desabou nos anos 1950.
O nome Leripe: a tradução “lugar de ostra” é a registrada pelo município; não encontramos estudo linguístico que a detalhe.
Linha do tempo
- c. 4.070–3.520 anos atrás Ocupação do Sambaqui da Tarioba.
- c. 1575 Primeiros registros de navegadores na costa.
- 20/11/1630 Martim Correia de Sá doa as terras aos jesuítas.
- 1759 Expulsão dos jesuítas; a igreja é concluída por outras ordens.
- 1847 D. Pedro II passa por Rio das Ostras.
- Século XIX O arraial, também chamado Baía Formosa, prospera em torno do poço e da igreja.
- Anos 1950 A antiga igreja desaba.
- 01/03/1970 Criação do distrito de Rio das Ostras.
- 10/04/1992 Lei estadual nº 1.984 cria o município.
- 01/01/1993 Instalação do município.
- 2000 Censo registra 36.419 habitantes.
- 2001 Data registrada pela prefeitura para a obra em bronze da baleia com o mergulhador.
- 2022 Censo registra 156.491 habitantes.
Conclusão
Rio das Ostras é uma cidade nova sobre um chão muito antigo. O sambaqui, os marcos jesuíticos, o poço e a figueira lembram que a história começou bem antes do petróleo. A baleia de Costa Azul virou o símbolo da cidade moderna — mas o nome do rio, herdado do tupi, continua contando de onde tudo veio.
Na próxima etapa da série, conheça a origem de Casimiro de Abreu, de onde Rio das Ostras se separou. Enquanto isso, leia a origem de Búzios, outra cidade emancipada nos anos 1990, e a de Cabo Frio. Para visitar sítios como a Tarioba, veja nosso kit para visitar ruínas e trilhas.
E você? Já tirou foto na Praça da Baleia ou visitou o Museu da Tarioba?
Perguntas frequentes
Quando Rio das Ostras se emancipou?
Pela Lei estadual nº 1.984, de 10 de abril de 1992, quando deixou de pertencer a Casimiro de Abreu. O município foi instalado em 1º de janeiro de 1993.
Qual era o nome antigo de Rio das Ostras?
Leripe ou Seripe, termo tupi traduzido como “lugar de ostra”. No século XIX, o arraial também foi chamado de Baía Formosa.
Quem fez a escultura da Praça da Baleia?
Segundo a prefeitura, a baleia-jubarte da praça é obra de Roberto de Sá e Clara Arthaud.
Qual é a população de Rio das Ostras?
O Censo 2022 do IBGE registrou 156.491 habitantes. A estimativa oficial de 2025 é de 168.455 pessoas.
Por que Rio das Ostras cresceu tanto?
Principalmente pela proximidade de Macaé e da exploração de petróleo na Bacia de Campos, além dos royalties e do turismo.
Fontes e referências
- IBGE. Rio das Ostras — Histórico e formação administrativa.
- IBGE Cidades. História de Rio das Ostras.
- IBGE Cidades. Panorama de Rio das Ostras (Censo 2022, estimativa 2025, área 2025).
- RODRIGUES, F. et al. Holocene crustaceans from the Tarioba shell mound, Rio das Ostras. Check List, v. 12, n. 2, 2016.
- PUC-Rio. Estudo sobre Rio das Ostras e o crescimento ligado ao petróleo (dissertação).
- PREFEITURA DE RIO DAS OSTRAS. Nossa história, nossa arte — material de pesquisa.
- Imagens: Ministério do Turismo (MTur Destinos), via Wikimedia Commons, em domínio público.