Pegadas que apontam para o lado errado, assobios que confundem o caminho, caçadores que se perdem na mata. O Curupira é um dos seres mais antigos do imaginário brasileiro — e um dos primeiros a ser registrados por escrito pelos europeus que chegaram ao continente.
Neste artigo
O primeiro registro
Em uma carta escrita em São Vicente e datada de 31 de maio de 1560, o padre jesuíta José de Anchieta relatou que os indígenas falavam de seres a quem chamavam “corupira”, que os atacavam no mato. É um dos registros escritos mais antigos de uma criatura do folclore brasileiro.
“…há certos demônios, a que os Brasis chamam Corupira, que acometem aos Índios muitas vezes no mato…”
José de Anchieta, carta de São Vicente, 31 de maio de 1560
O olhar de Anchieta era o de um missionário: para ele, aquelas figuras eram “demônios”. Para os povos indígenas, porém, o Curupira fazia parte de uma relação com a floresta, em que certos seres protegiam a mata e seus animais.

O guardião da mata
Na versão mais conhecida, o Curupira é um menino pequeno, de cabelos vermelhos e pés virados para trás. Os pés invertidos deixam pegadas que enganam quem tenta segui-lo. Ele protege as árvores e os animais e castiga quem caça por prazer, derruba a mata sem necessidade ou mata filhotes. Assobios estridentes, imitações de vozes humanas e trilhas que andam em círculo são algumas de suas armas para desorientar os invasores.
Em muitas regiões, quem entra na floresta deixa oferendas — fumo, comida, bebida — para não despertar sua ira. A prática ainda aparece em relatos de seringueiros e de outras comunidades que vivem da mata.
De onde vem o nome?
Uma explicação bastante difundida liga o nome ao tupi: “curu”, de curumim (menino), e “pira”, corpo — o “corpo de menino”. Como acontece com muitas etimologias indígenas, há outras interpretações entre os estudiosos.
Um Curupira, muitas versões
Como toda lenda transmitida oralmente, o Curupira muda de região para região. Em alguns lugares é descrito maior, careca ou coberto de pelos; em outros, é confundido ou fundido com a Caipora, outra protetora da mata. Seres parecidos aparecem em países vizinhos, como o Curupi, conhecido no Paraguai e na Argentina.

O Curupira hoje
Mais de quatro séculos depois da carta de Anchieta, o Curupira continua presente em livros infantis, festas do folclore — celebrado no Brasil em 22 de agosto — e campanhas ambientais. Em julho de 2025, o governo federal o escolheu como mascote da COP30, a conferência do clima da ONU realizada em Belém, no Pará: o antigo guardião da floresta virou símbolo da defesa da Amazônia.
Lenda ou registro?
Documentado: a menção ao “corupira” na carta de Anchieta de 1560 e a presença contínua da figura na tradição oral de várias regiões do Brasil.
Tradição oral: a aparência, os poderes e as histórias de encontros com o Curupira — que variam conforme quem conta e onde se conta.
Fontes e referências
- ANCHIETA, José de. Carta de São Vicente, 31 de maio de 1560. In: Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.
- NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Qual é a origem do Curupira? 2025.
- Imagens: Wikimedia Commons (licenças indicadas nas legendas).