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Curupira: o guardião da floresta registrado por Anchieta em 1560

Pés virados, cabelos vermelhos e uma carta jesuíta do século XVI: a origem de um dos seres mais antigos do folclore brasileiro.

Por Redação Camadas do Brasil

Publicado em 17 de outubro de 2026

Atualizado em 20 de outubro de 2026

Neblina sobre a copa das árvores da Floresta Amazônica

Neblina na Floresta Amazônica. Foto: Carlamoura.amb / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Pegadas que apontam para o lado errado, assobios que confundem o caminho, caçadores que se perdem na mata. O Curupira é um dos seres mais antigos do imaginário brasileiro — e um dos primeiros a ser registrados por escrito pelos europeus que chegaram ao continente.

O primeiro registro

Em uma carta escrita em São Vicente e datada de 31 de maio de 1560, o padre jesuíta José de Anchieta relatou que os indígenas falavam de seres a quem chamavam “corupira”, que os atacavam no mato. É um dos registros escritos mais antigos de uma criatura do folclore brasileiro.

“…há certos demônios, a que os Brasis chamam Corupira, que acometem aos Índios muitas vezes no mato…”

José de Anchieta, carta de São Vicente, 31 de maio de 1560

O olhar de Anchieta era o de um missionário: para ele, aquelas figuras eram “demônios”. Para os povos indígenas, porém, o Curupira fazia parte de uma relação com a floresta, em que certos seres protegiam a mata e seus animais.

Neblina sobre a copa das árvores da Floresta Amazônica
Neblina na Floresta Amazônica. Foto: Carlamoura.amb / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

O guardião da mata

Na versão mais conhecida, o Curupira é um menino pequeno, de cabelos vermelhos e pés virados para trás. Os pés invertidos deixam pegadas que enganam quem tenta segui-lo. Ele protege as árvores e os animais e castiga quem caça por prazer, derruba a mata sem necessidade ou mata filhotes. Assobios estridentes, imitações de vozes humanas e trilhas que andam em círculo são algumas de suas armas para desorientar os invasores.

Em muitas regiões, quem entra na floresta deixa oferendas — fumo, comida, bebida — para não despertar sua ira. A prática ainda aparece em relatos de seringueiros e de outras comunidades que vivem da mata.

De onde vem o nome?

Uma explicação bastante difundida liga o nome ao tupi: “curu”, de curumim (menino), e “pira”, corpo — o “corpo de menino”. Como acontece com muitas etimologias indígenas, há outras interpretações entre os estudiosos.

Um Curupira, muitas versões

Como toda lenda transmitida oralmente, o Curupira muda de região para região. Em alguns lugares é descrito maior, careca ou coberto de pelos; em outros, é confundido ou fundido com a Caipora, outra protetora da mata. Seres parecidos aparecem em países vizinhos, como o Curupi, conhecido no Paraguai e na Argentina.

Boneco de pano artesanal do Curupira, com cabelos vermelhos e pés virados para trás
O Curupira em artesanato popular. Foto: LY Coisas e Coisinhas / Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

O Curupira hoje

Mais de quatro séculos depois da carta de Anchieta, o Curupira continua presente em livros infantis, festas do folclore — celebrado no Brasil em 22 de agosto — e campanhas ambientais. Em julho de 2025, o governo federal o escolheu como mascote da COP30, a conferência do clima da ONU realizada em Belém, no Pará: o antigo guardião da floresta virou símbolo da defesa da Amazônia.

Lenda ou registro?

Documentado: a menção ao “corupira” na carta de Anchieta de 1560 e a presença contínua da figura na tradição oral de várias regiões do Brasil.

Tradição oral: a aparência, os poderes e as histórias de encontros com o Curupira — que variam conforme quem conta e onde se conta.

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Fontes e referências

  1. ANCHIETA, José de. Carta de São Vicente, 31 de maio de 1560. In: Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.
  2. NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Qual é a origem do Curupira? 2025.
  3. Imagens: Wikimedia Commons (licenças indicadas nas legendas).