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Origem de Silva Jardim: o Capivari que virou terra do mico-leão-dourado

Da capela de Sant’Ana no Capivari ao republicano que morreu no Vesúvio e à reserva que salvou o mico-leão-dourado: a origem de Silva Jardim.

Por Redação Camadas do Brasil

Publicado em 21 de outubro de 2026

Atualizado em 21 de outubro de 2026

Mico-leão-dourado de pelagem laranja sentado em um galho, com a boca aberta, entre folhas verdes da Reserva Biológica de Poço das Antas

Mico-leão-dourado na Reserva Biológica de Poço das Antas, em Silva Jardim. Foto: Julio Morais / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0), 2024.

Série Origem das Cidades — Região dos Lagos · Município: Silva Jardim (RJ)

Silva Jardim leva o nome de um republicano que fez o primeiro comício pela República no Brasil e morreu tragado pelo Vesúvio, na Itália. Antes, a cidade se chamava Capivari e nasceu em torno de uma capela de Sant’Ana erguida por um casal de fazendeiros. Hoje, é conhecida por abrigar a reserva que ajudou a salvar o mico-leão-dourado da extinção — e a represa que abastece de água a Região dos Lagos.

O interior verde da Região dos Lagos

Silva Jardim não tem praia. Fica no interior, entre a Serra do Mar e as baixadas do Rio São João, e é o maior município desta série em área: quase 938 km², o 10º maior do estado. Ao mesmo tempo, tem pouco mais de 21 mil habitantes, o que faz dela uma das cidades menos densamente povoadas do Rio de Janeiro.

Para o IBGE, o município integra a microrregião da Bacia de São João, ao lado de Casimiro de Abreu e Rio das Ostras. Sua história passa por aldeamentos indígenas, fazendas de café, uma vila construída com dinheiro de fazendeiros e, no século XX, pela conservação da Mata Atlântica.

Origem do nome

O nome homenageia Antônio da Silva Jardim, nascido em 18 de agosto de 1860 na então vila de Nossa Senhora da Lapa do Capivari. Advogado, jornalista, abolicionista e positivista, ele foi um dos mais radicais propagandistas da República. Segundo o verbete do CPDOC/FGV citado em sua biografia, fez o primeiro comício republicano do país em 28 de janeiro de 1888.

Capa de jornal ilustrado de 1889 com caricaturas do republicano Silva Jardim discursando enquanto é ameaçado por adversários armados
Capa de periódico de 1889 mostrando o republicano Antônio da Silva Jardim ameaçado por adversários. Digitalização de Mccapra / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Depois de romper com o Partido Republicano e perder uma eleição para o Congresso, deixou a política e viajou à Europa. Em 1º de julho de 1891, ao visitar o Vesúvio, caiu em uma fenda da cratera e desapareceu. A cidade natal, que se chamava Capivari, passou a se chamar Silva Jardim pelo Decreto-lei estadual nº 1.056, de 31 de dezembro de 1943. Quem nasce ali é silva-jardinense.

Povos originários e período pré-colonial

A região era ocupada por povos indígenas da serra e das baixadas. No século XVIII, a política dos “descimentos” levou missionários a reunir indígenas em aldeamentos. Segundo o IBGE, em 1740 o capuchinho italiano Francisco Maria Tali chegou com índios guarus a uma área chamada Aldeia Velha — hoje distrito de Silva Jardim — e ali ergueu, em 1748, uma capela à Sagrada Família de Ipuca. Epidemias levaram a sede dessa freguesia para a Barra de São João em 1801, como contamos na origem de Casimiro de Abreu.

Povoamento e fundação histórica

A capela de Sant’Ana e o Capivari

Segundo o histórico do IBGE, Capivari foi fundada em 1801, nas terras de dona Maria Rodrigues, viúva de Manoel da Silveira Azevedo. O casal havia construído ali uma capela dedicada a Sant’Ana. A pedido dos moradores, a viúva doou a capela e o terreno ao redor para a criação da paróquia de Nossa Senhora da Lapa do Capivari. O vilarejo cresceu em volta da igreja.

Uma vila paga pelos fazendeiros

Em 1841, a freguesia foi elevada a vila, separando-se de Cabo Frio. A condição para o desmembramento era que os fazendeiros locais construíssem a casa da câmara e a cadeia. O major Joaquim Fernandes Lopes Ramos, o alferes Luiz Gomes da Silva Leite e membros da família Pinto Coelho fizeram as obras entre 1841 e 1843, e a vila foi instalada em 6 de janeiro de 1843.

Povoamento não é emancipação

A ocupação da área é anterior a 1801, com o aldeamento de Aldeia Velha e as fazendas da baixada. O marco da cidade, porém, é a capela de Sant’Ana, e a autonomia veio com a lei de 8 de maio de 1841 — data que o município comemora como aniversário.

Emancipação política e legislação

De acordo com a formação administrativa registrada pelo IBGE:

  • Alvará de 12/01/1755 e provisão de outubro de 1810: datas citadas para a freguesia de Nossa Senhora da Lapa do Capivari (os historiadores divergem);
  • Lei provincial nº 239, de 08/05/1841: eleva a localidade a vila, desmembrada de Cabo Frio ou Araruama; instalação em 06/01/1843;
  • Lei provincial nº 343, de 06/06/1844: cria o distrito de Correntezas;
  • 1860: criação do distrito de Nossa Senhora da Conceição dos Gaviões, que passou alguns anos (1877–1880) ligado a Santana de Macacu;
  • Decreto estadual nº 28, de 03/01/1890: elevação a cidade com o nome de Capivari;
  • Decreto-lei estadual nº 1.056, de 31/12/1943: o município passa a se chamar Silva Jardim;
  • Lei municipal nº 944, de 20/06/1990: o distrito de Quartéis passa a se chamar Aldeia Velha.

Hoje o município tem quatro distritos: Silva Jardim (sede), Aldeia Velha, Correntezas e Gaviões.

Transformação ao longo do tempo

Café, cana e cereais

Segundo o IBGE, a localidade viveu quase exclusivamente da agricultura. O café foi o principal produto, seguido da cana-de-açúcar e dos cereais, e trouxe prosperidade aos fazendeiros no século XIX.

Estrada de terra na zona rural de Silva Jardim, com casas simples e morros verdes ao fundo
Zona rural de Silva Jardim, município de grande extensão e baixa densidade. Foto: Eduardo P / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0), 2012.

A reserva do mico-leão-dourado

Em 11 de março de 1974, o Decreto federal nº 73.791 criou a Reserva Biológica de Poço das Antas, para proteger remanescentes de Mata Atlântica e espécies ameaçadas. A reserva se tornou o principal refúgio do mico-leão-dourado.

Os números mostram o resultado. Segundo a Associação Mico-Leão-Dourado, nos anos 1970 restavam cerca de 200 animais na natureza. Em 2014 eram cerca de 3.700. A febre amarela derrubou a população para cerca de 2.500 em 2018, mas o censo de 2023 contou cerca de 4.800 micos, a maioria na bacia do Rio São João — que inclui Silva Jardim.

Fotografia em preto e branco de dois micos-leões-dourados sentados lado a lado em um galho
Dois micos-leões-dourados fotografados em 1997, provavelmente em Poço das Antas, pela pesquisadora Devra Kleiman. Smithsonian Institution Archives, via Wikimedia Commons (sem restrições de direitos conhecidas).

A represa que abastece a Região dos Lagos

Entre 1982 e 1984, o antigo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) represou o rio e cobriu a antiga Lagoa de Juturnaíba, na divisa com Araruama. O reservatório, com cerca de 43 km², passou a abastecer oito municípios da Região dos Lagos, segundo estudo publicado nos Cadernos de Geografia da UFF.

Vista aérea do vertedouro da Represa de Juturnaíba, com a barragem de concreto atravessando o rio entre áreas verdes
Vertedouro da Represa de Juturnaíba, formada entre 1982 e 1984 e principal fonte de água da Região dos Lagos. Foto: Governo do Estado do Rio de Janeiro / Wikimedia Commons (CC0), 2019.

População e raio-x atual

  • População (Censo IBGE 2022): 21.352 habitantes;
  • População estimada (IBGE, 2025): 22.028 habitantes;
  • Área territorial (IBGE, 2025): 937,755 km² — a 10ª maior do estado;
  • Densidade demográfica (2022): 22,77 hab/km²;
  • Salário médio dos trabalhadores formais (2023): 2,1 salários mínimos;
  • Gentílico: silva-jardinense · Aniversário: 8 de maio.

Principais pontos turísticos e suas histórias

Reserva Biológica de Poço das Antas

Com cerca de 5 mil hectares, a reserva é uma unidade de proteção integral, criada a partir de uma antiga estação agrícola experimental. Por ser reserva biológica, a visitação é restrita a atividades educativas e científicas autorizadas.

Represa de Juturnaíba

O espelho d’água formado nos anos 1980 é a caixa-d’água da Região dos Lagos e uma das paisagens mais marcantes do município.

Aldeia Velha

O distrito onde os capuchinhos instalaram o aldeamento dos guarus no século XVIII guarda hoje rios e áreas de Mata Atlântica, no caminho da serra.

Serra e Parque Estadual dos Três Picos

Parte do Parque Estadual dos Três Picos, criado em 2002, está dentro de Silva Jardim, que também integra o Mosaico Central Fluminense de áreas protegidas.

Curiosidades historicamente verificadas

Um nome tragado pelo vulcão

Antônio da Silva Jardim morreu em 1891, aos 30 anos, ao cair em uma fenda da cratera do Vesúvio. Um jornal mineiro da época, A Pátria Mineira, descreveu o caso como acidente, testemunhado por um guia e por um amigo.

Gêmea de Saquarema no calendário

Silva Jardim e Saquarema viraram vilas pela mesma lei provincial em sequência — nº 238 e nº 239, ambas de 8 de maio de 1841 — e viraram cidades pelo mesmo decreto, o nº 28, de 3 de janeiro de 1890.

De 200 para 4.800

A população de micos-leões-dourados na natureza passou de cerca de 200, nos anos 1970, para cerca de 4.800 em 2023.

Mistérios, mitos e lendas

Acidente ou suicídio? A morte de Silva Jardim no Vesúvio nunca foi totalmente esclarecida. Os relatos de 1891 falam em acidente, mas biógrafos registram que não se sabe com certeza se ele se arriscou de propósito. Sem prova, a hipótese de suicídio continua sendo especulação.

1755, 1801 ou 1810? O IBGE traz três datas para as origens: um alvará de 1755, a fundação do Capivari em 1801 e uma provisão de 1810 para a freguesia. Os próprios historiadores divergem. O que é consenso é a capela de Sant’Ana como núcleo da cidade.

Linha do tempo

  • 1740 O capuchinho Francisco Maria Tali chega a Aldeia Velha com índios guarus.
  • 1748 Capela da Sagrada Família de Ipuca em Aldeia Velha.
  • 1801 Fundação do Capivari em torno da capela de Sant’Ana, segundo o IBGE.
  • 08/05/1841 Lei provincial nº 239 cria a vila de Nossa Senhora da Lapa do Capivari.
  • 06/01/1843 Instalação da vila, com câmara e cadeia pagas por fazendeiros.
  • 18/08/1860 Nasce Antônio da Silva Jardim.
  • 28/01/1888 Silva Jardim faz o primeiro comício republicano do país.
  • 03/01/1890 Capivari é elevada a cidade.
  • 01/07/1891 Silva Jardim morre no Vesúvio.
  • 31/12/1943 O município passa a se chamar Silva Jardim.
  • 11/03/1974 Criação da Reserva Biológica de Poço das Antas.
  • 1982–1984 Construção da Represa de Juturnaíba.
  • 2023 Censo conta cerca de 4.800 micos-leões-dourados na natureza.

Conclusão

Silva Jardim é a camada verde desta série. Nasceu de uma capela de fazenda, cresceu com o café e ganhou o nome de um republicano trágico. No século XX, virou peça-chave para a Região dos Lagos de outro jeito: guardando a água que abastece o litoral e a floresta onde o mico-leão-dourado voltou a crescer.

Leia também a origem de Casimiro de Abreu, que divide com Silva Jardim a história de Aldeia Velha, e a de Saquarema, sua “gêmea” de calendário. Para conhecer áreas naturais com segurança, veja nosso kit para trilhas.

E você? Já viu um mico-leão-dourado na natureza? Conhecia a história do republicano que deu nome à cidade?

Perguntas frequentes

Quem foi Silva Jardim?

Antônio da Silva Jardim (1860–1891), advogado, jornalista e propagandista da República nascido no antigo Capivari. Morreu ao cair na cratera do Vesúvio, na Itália.

Qual era o nome antigo de Silva Jardim?

Nossa Senhora da Lapa do Capivari e, a partir de 1890, Capivari. O nome Silva Jardim foi adotado em 31 de dezembro de 1943.

Quando Silva Jardim virou município?

A vila foi criada pela Lei provincial nº 239, de 8 de maio de 1841, e instalada em 6 de janeiro de 1843.

Onde fica a Reserva de Poço das Antas?

Em Silva Jardim. Foi criada em 1974 e é o principal refúgio do mico-leão-dourado.

Qual é a população de Silva Jardim?

O Censo 2022 do IBGE registrou 21.352 habitantes. A estimativa oficial de 2025 é de 22.028 pessoas.

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Fontes e referências

  1. IBGE. Silva Jardim — Histórico e formação administrativa.
  2. IBGE Cidades. História de Silva Jardim.
  3. IBGE Cidades. Panorama de Silva Jardim (Censo 2022, estimativa 2025, área 2025).
  4. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Decreto nº 73.791, de 11 de março de 1974 — Reserva Biológica de Poço das Antas.
  5. ASSOCIAÇÃO MICO-LEÃO-DOURADO. Censo 2023 do mico-leão-dourado.
  6. CADERNOS DE GEOGRAFIA (UFF). Estudo sobre a Represa de Juturnaíba.
  7. DIÁRIO DO RIO. Silva Jardim: o jornalista do Rio de Janeiro que morreu em vulcão na Itália.
  8. WIKIPEDIA. Antônio da Silva Jardim (com base em verbete do CPDOC/FGV).
  9. Imagens: Wikimedia Commons e Smithsonian Institution Archives (autores e licenças nas legendas).