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Os subterrâneos do Morro do Castelo e a lenda do tesouro jesuíta

O que os documentos dizem — e o que ficou só na imaginação — sobre as galerias encontradas sob o primeiro coração do Rio de Janeiro.

Por admin

Publicado em 20 de outubro de 2026

Atualizado em 20 de outubro de 2026

Fotografia em preto e branco do desmonte do Morro do Castelo, no centro do Rio de Janeiro

Desmonte do Morro do Castelo, c. 1912–1922. Acervo Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons (domínio público).

Em 28 de abril de 1905, o Correio da Manhã estampou na primeira página uma notícia de tirar o fôlego: operários teriam encontrado, sob o Morro do Castelo, galerias deixadas pelos jesuítas — e, com elas, “fabulosas riquezas”. O que havia de verdade nessa história? E por que ela sobreviveu ao próprio morro, que desapareceu do mapa poucos anos depois?

O morro onde o Rio começou

A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada em 1565 por Estácio de Sá, junto ao Morro Cara de Cão, na entrada da Baía de Guanabara. Dois anos depois, com os franceses expulsos, Mem de Sá transferiu o núcleo urbano para um morro à beira da baía — o Morro do Descanso, depois conhecido como Alto de São Sebastião e, por fim, Morro do Castelo. O lugar foi escolhido pela defesa: do alto, avistava-se a baía e a ilha onde os franceses haviam se instalado.

Ali nasceu a primeira cidade murada e fortificada: a Casa da Câmara e Cadeia, a Casa do Governador, os armazéns, a igreja de São Sebastião — que abrigou a primeira Sé — e o colégio e a igreja dos jesuítas. Para o alto do morro foram levados também o marco de pedra da fundação e os restos mortais de Estácio de Sá.

Hospital São Zacharias e a igreja de Santo Inácio, dos jesuítas, no alto do Morro do Castelo
Hospital São Zacharias e, à direita, a igreja de Santo Inácio, dos jesuítas. Acervo Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons (domínio público).

A origem da lenda do tesouro

Em 1759, por ordem do Marquês de Pombal, os jesuítas foram expulsos de Portugal e de seus domínios. Os bens da ordem foram confiscados — e, segundo os relatos da época, as autoridades encontraram muito menos riqueza do que esperavam. Bastou essa diferença entre expectativa e realidade para nascer a suspeita: os padres teriam escondido ouro, prata e objetos sacros em passagens secretas sob o colégio.

A ideia circulou durante todo o século XIX. Em 1878, José Rocha Leão, sob o pseudônimo Leo Junius, publicou o livro Os subterrâneos do morro do Castelo, ajudando a fixar a lenda no imaginário carioca.

Você sabia?

As 26 crônicas sobre o “subterrâneo” do Castelo publicadas em 1905 saíram sem assinatura. Só décadas depois a pesquisadora Beatriz Resende atribuiu a autoria a Lima Barreto, que na época trabalhava no Correio da Manhã.

Fonte: Muñoz Solano, Revista Estudios, n. 41 (2020).

As galerias de 1905

No início do século XX, o prefeito Francisco Pereira Passos conduzia uma profunda reforma urbana no centro do Rio. Para abrir a Avenida Central — a atual Avenida Rio Branco —, quarteirões coloniais inteiros e parte da encosta do Castelo foram demolidos.

Obras de abertura da Avenida Central no Rio de Janeiro, início do século XX
Avenida Central em construção, início do século XX. Acervo Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons (domínio público).

Foi nesse cenário que o Correio da Manhã anunciou, em 28 de abril de 1905, a descoberta de uma galeria durante as demolições. Entre aquela data e 6 de junho, o jornal publicou uma série de 26 textos que misturavam reportagem e folhetim: documentos misteriosos, manuscritos antigos, pistas sobre tesouros escondidos.

Segundo a análise do pesquisador Néfer Muñoz Solano, o que os próprios textos registram como fato é bem mais modesto: a entrada de um túnel, cujas medidas inclusive variam de uma edição para outra. Os tesouros, os documentos e os personagens que dão sabor à série pertencem à ficção do narrador.

Linha do tempo

  • 1565 Estácio de Sá funda a cidade junto ao Morro Cara de Cão.
  • 1567 Mem de Sá transfere a cidade para o alto do futuro Morro do Castelo.
  • 1759 Expulsão dos jesuítas por ordem do Marquês de Pombal.
  • 1878 Publicação de Os subterrâneos do morro do Castelo, de Leo Junius.
  • 1905 O Correio da Manhã publica a série sobre a galeria encontrada nas obras da Avenida Central.
  • 1920–1922 O morro é arrasado na gestão do prefeito Carlos Sampaio.

O fim do morro

A ideia de derrubar o Castelo era antiga: já no século XIX engenheiros defendiam o desmonte, alegando problemas de ventilação e de escoamento das águas. A decisão veio na gestão do prefeito Carlos Sampaio. Com base em um decreto de agosto de 1920, o morro foi arrasado entre 1920 e 1922. As justificativas oficiais falavam em saúde pública — a encosta abrigava casarões antigos e cortiços — e na preparação da cidade para a Exposição do Centenário da Independência.

Fotografia em preto e branco do desmonte do Morro do Castelo, no centro do Rio de Janeiro
Desmonte do Morro do Castelo, c. 1912–1922. Acervo Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons (domínio público).

A terra retirada serviu para aterrar áreas da cidade, entre elas parte da Urca, trechos ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas e a região onde hoje fica o Aeroporto Santos Dumont. O desmonte foi duramente criticado por intelectuais da época. Com ele, desapareceu quase todo o traçado do Rio do século XVI.

Lenda ou registro?

Documentado: a fundação da cidade no morro, a presença do colégio jesuíta, a expulsão da ordem em 1759, a série de 1905 no Correio da Manhã e o arrasamento entre 1920 e 1922.

Sem comprovação: a existência de um tesouro jesuíta escondido. Nenhum achado desse tipo foi registrado, nem durante as obras de 1905, nem durante o desmonte do morro.

A lenda, porém, continua viva — talvez justamente porque o morro não existe mais para ser investigado.

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Fontes e referências

  1. MUÑOZ SOLANO, Néfer. Lima Barreto: la ficción y la no ficción en «El Subterráneo del Cerro del Castillo». Revista Estudios, Universidad de Costa Rica, n. 41, 2020-2021.
  2. BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Crônicas publicadas no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, abr.–jun. 1905. Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira.
  3. DIÁRIO DO RIO. História do Morro do Castelo.
  4. Imagens: acervo do Instituto Moreira Salles, via Wikimedia Commons.