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O Coronel e o Diabo: as lendas do Vale do São Francisco sobre pactos e fortunas súbitas

Pactos na encruzilhada, o famaliá na garrafa e o pacto de Riobaldo: as lendas do sertão do São Francisco que explicavam fortunas súbitas de coronéis.

Por Redação Camadas do Brasil

Publicado em 21 de outubro de 2026

Atualizado em 21 de outubro de 2026

Rio São Francisco largo e de águas barrentas sob céu azul, com vegetação nas margens, em Januária

O Rio São Francisco em Januária, no norte de Minas, região onde folcloristas registraram a crença no famaliá. Foto: João Batista Campos / Wikimedia Commons (CC0), 2013.

No sertão do São Francisco, quando um homem enriquecia rápido demais, o povo tinha uma explicação na ponta da língua: “fez pacto com o diabo” — ou guardava, escondido numa garrafa, um diabinho chamado famaliá. Essas histórias cercaram fazendeiros, comerciantes e coronéis por gerações e chegaram à literatura em Grande Sertão: Veredas. Mas de onde vêm essas crenças, e o que elas revelam sobre o poder no interior do Brasil?

Fortunas que ninguém explicava

O Vale do São Francisco foi, por séculos, terra de grandes fazendas de gado, comércio fluvial e chefes políticos locais. Nesse mundo, a riqueza costumava vir da terra, do gado, do sal, do comércio nas barcas e das alianças políticas — mas, para quem olhava de fora, algumas fortunas pareciam surgir do nada.

A tradição oral encontrou duas explicações sobrenaturais para isso: o pacto, um acordo direto com o demônio em troca da alma, e o famaliá, um diabinho de estimação que trabalhava para o dono. As duas crenças aparecem em registros de folcloristas de Minas Gerais e da Bahia.

Rio São Francisco largo e de águas barrentas sob céu azul, com vegetação nas margens, em Januária
O Rio São Francisco em Januária, no norte de Minas, região onde folcloristas registraram a crença no famaliá. Foto: João Batista Campos / Wikimedia Commons (CC0), 2013.

O famaliá: o diabo na garrafa

Segundo o folclorista mineiro Saul Martins, em texto publicado no Diário de Minas em 1950 e citado em estudo de Pedro Lucas Santana, o famaliá é um diabinho guardado numa garrafa escura, que “ajuda seu padrasto, dando-lhe dinheiro, mas animando-o nos vícios”. O nome é uma deformação popular de “familiar”, termo antigo para espíritos que servem a uma pessoa.

A receita é sempre parecida: encontrar um “ovo de galo” — um ovo pequeno e raro, às vezes descrito como o primeiro ovo de uma galinha preta — e chocá-lo debaixo do braço durante a Quaresma. Do ovo nasceria o diabinho, que deveria ser trancado na garrafa. Em troca da prosperidade, o dono entregaria a alma depois da morte. Em algumas versões, inspiradas nos livros de São Cipriano, o pacto era selado com sangue.

O mesmo estudo registra a crença entre fazendeiros do norte de Minas, no vale do São Francisco, em Januária, e afirma que a presença do “familiar” já era assinalada na Bahia em 1591 — ano da primeira visita do Santo Ofício da Inquisição ao Brasil.

Um comerciante sem clientes

Crônicas do interior mineiro repetem um padrão: o comerciante cuja loja vivia vazia, mas que nunca ficava sem dinheiro. Para os vizinhos, só um famaliá explicaria. É o tipo de história que transforma o mistério de uma fortuna em lenda.

Fonte: José Carlos Sá, “O capeta na garrafa”, Banzeiros (2026), com base em relatos de família.

O pacto na encruzilhada

Ao lado do famaliá, o sertão conta histórias de pactos firmados diretamente com o Cão, o Tinhoso ou o Coisa-Ruim — alguns dos muitos nomes usados para não chamar o diabo pelo nome. Nos relatos populares, o encontro acontece à meia-noite, em lugares ermos como encruzilhadas e veredas, e o preço é sempre a alma.

Foi essa tradição que João Guimarães Rosa levou para Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956. O narrador, Riobaldo, vai às Veredas-Mortas para fazer o pacto e, a partir dali, ganha coragem para se tornar chefe de jagunços — mas passa o resto da vida em dúvida se o diabo realmente apareceu. Na obra, o inimigo Hermógenes também é chamado de pactário. Estudos acadêmicos, como o do psicanalista Tiago Ribeiro Nunes (UFG), mostram como o romance transforma a crença popular em reflexão sobre culpa, liberdade e poder.

Mandacaru em primeiro plano diante de um cânion de pedras com o Rio São Francisco ao fundo
Sertão e Rio São Francisco: a paisagem onde nasceram as histórias de pactos e fortunas. Foto: Blogilberto / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0), 2019.

Coronéis, poder e boatos

Por que esses boatos colavam justamente nos coronéis e fazendeiros? A resposta é mais histórica do que sobrenatural. No interior do Brasil, sobretudo na Primeira República, grandes proprietários concentravam terras, votos e influência política — o fenômeno analisado por Victor Nunes Leal em Coronelismo, enxada e voto, de 1949. Riquezas acumuladas com grilagem, violência, favores políticos ou simplesmente bons negócios eram difíceis de explicar para quem vivia na pobreza.

Atribuir a fortuna ao diabo era, ao mesmo tempo, uma forma de explicar o inexplicável e uma crítica velada: quem enriquece depressa demais, às custas dos outros, só pode ter feito um negócio com o Tinhoso.

Os encantados do rio

O sobrenatural no São Francisco não se limita aos pactos. Os remeiros e barqueiros contavam histórias de encantados como o Caboclo d’Água, a Mãe d’Água e o Minhocão. Para se proteger, as barcas levavam na proa as famosas carrancas, esculturas de rosto assustador que, segundo a tradição, afugentavam esses seres e os maus espíritos. Estudo apresentado na Unicamp em 2013 situa as carrancas primitivas na virada do século XIX para o XX.

Barco de madeira com toldo vermelho e uma carranca na proa, ancorado nas águas do Rio São Francisco
Barco com carranca na proa no Rio São Francisco. Foto: Glauco Umbelino / Wikimedia Commons (CC BY 2.0), 2007.

Mito ou fato?

Documentado: a crença no famaliá e nos pactos foi registrada por folcloristas, como Saul Martins em 1950, e aparece em relatos orais do norte de Minas e da Bahia. O coronelismo como sistema de poder no interior também é amplamente estudado.

Lenda: não existe qualquer prova de que alguém tenha feito pacto com o diabo ou criado um famaliá. As histórias sobre coronéis específicos são boatos de tradição oral — por isso não citamos nomes de pessoas reais como “pactários”. O que essas lendas registram, de fato, é a desconfiança popular diante de fortunas e poderes concentrados.

Linha do tempo

  • 1591 Primeira Visitação do Santo Ofício à Bahia; o estudo de Santana afirma que o “familiar” já era assinalado nessa época.
  • Séc. XIX Barcas do São Francisco passam a usar carrancas na proa, segundo estudos sobre arte popular.
  • 1949 Victor Nunes Leal publica Coronelismo, enxada e voto.
  • 1950 Saul Martins publica “O famaliá” no Diário de Minas.
  • 1956 Guimarães Rosa publica Grande Sertão: Veredas, com o pacto de Riobaldo nas Veredas-Mortas.

Conclusão

As lendas do coronel e do diabo dizem pouco sobre o inferno e muito sobre o sertão. Elas nasceram onde a riqueza era rara e o poder, concentrado, e serviram para explicar — e criticar — quem subia rápido demais. Do famaliá na garrafa ao pacto de Riobaldo, o diabo do São Francisco é, antes de tudo, um personagem da história social do Brasil.

Leia também a história real por trás da Loira do Banheiro e a origem do Curupira.

E você? Na sua família ou cidade, alguém contava histórias de pacto ou de famaliá?

Perguntas frequentes

O que é o famaliá?

É um diabinho da tradição popular, guardado numa garrafa, que traria riqueza ao dono em troca da alma. O nome vem de “familiar”, termo antigo para espíritos que servem a uma pessoa.

Como se faria um famaliá, segundo a lenda?

Chocando um “ovo de galo” ou o primeiro ovo de uma galinha preta debaixo do braço durante a Quaresma, segundo relatos registrados por folcloristas.

Grande Sertão: Veredas fala de pacto com o diabo?

Sim. O narrador Riobaldo tenta fazer o pacto nas Veredas-Mortas e passa a vida em dúvida se ele realmente aconteceu.

Algum coronel fez pacto com o diabo?

Não há qualquer prova. As histórias são boatos da tradição oral, que expressavam a desconfiança popular diante de fortunas e poderes concentrados.

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Fontes e referências

  1. SANTANA, Pedro Lucas. O Famaliá (com citação de Saul Martins, “O famaliá”, Diário de Minas, 31 dez. 1950).
  2. SÁ, José Carlos. O capeta na garrafa. Banzeiros, 2026.
  3. NUNES, Tiago Ribeiro. Riobaldo Pactário: liberdade e predestinação. Revista UFG.
  4. CRISPIM, Regina; SANTANA, Rogério. A (des)ordem no sertão: violência e sobrevivência em Grande sertão: veredas. Signótica, v. 21, n. 1, 2009.
  5. SILVA JR., Luiz Severino da. Carranca vampira: a vitória da estética mercadológica. IX Encontro de História da Arte, Unicamp, 2013.
  6. LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. Rio de Janeiro, 1949.
  7. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.
  8. Imagens: Wikimedia Commons (autores e licenças nas legendas).