No sertão do São Francisco, quando um homem enriquecia rápido demais, o povo tinha uma explicação na ponta da língua: “fez pacto com o diabo” — ou guardava, escondido numa garrafa, um diabinho chamado famaliá. Essas histórias cercaram fazendeiros, comerciantes e coronéis por gerações e chegaram à literatura em Grande Sertão: Veredas. Mas de onde vêm essas crenças, e o que elas revelam sobre o poder no interior do Brasil?
Neste artigo
Fortunas que ninguém explicava
O Vale do São Francisco foi, por séculos, terra de grandes fazendas de gado, comércio fluvial e chefes políticos locais. Nesse mundo, a riqueza costumava vir da terra, do gado, do sal, do comércio nas barcas e das alianças políticas — mas, para quem olhava de fora, algumas fortunas pareciam surgir do nada.
A tradição oral encontrou duas explicações sobrenaturais para isso: o pacto, um acordo direto com o demônio em troca da alma, e o famaliá, um diabinho de estimação que trabalhava para o dono. As duas crenças aparecem em registros de folcloristas de Minas Gerais e da Bahia.

O famaliá: o diabo na garrafa
Segundo o folclorista mineiro Saul Martins, em texto publicado no Diário de Minas em 1950 e citado em estudo de Pedro Lucas Santana, o famaliá é um diabinho guardado numa garrafa escura, que “ajuda seu padrasto, dando-lhe dinheiro, mas animando-o nos vícios”. O nome é uma deformação popular de “familiar”, termo antigo para espíritos que servem a uma pessoa.
A receita é sempre parecida: encontrar um “ovo de galo” — um ovo pequeno e raro, às vezes descrito como o primeiro ovo de uma galinha preta — e chocá-lo debaixo do braço durante a Quaresma. Do ovo nasceria o diabinho, que deveria ser trancado na garrafa. Em troca da prosperidade, o dono entregaria a alma depois da morte. Em algumas versões, inspiradas nos livros de São Cipriano, o pacto era selado com sangue.
O mesmo estudo registra a crença entre fazendeiros do norte de Minas, no vale do São Francisco, em Januária, e afirma que a presença do “familiar” já era assinalada na Bahia em 1591 — ano da primeira visita do Santo Ofício da Inquisição ao Brasil.
Um comerciante sem clientes
Crônicas do interior mineiro repetem um padrão: o comerciante cuja loja vivia vazia, mas que nunca ficava sem dinheiro. Para os vizinhos, só um famaliá explicaria. É o tipo de história que transforma o mistério de uma fortuna em lenda.
Fonte: José Carlos Sá, “O capeta na garrafa”, Banzeiros (2026), com base em relatos de família.
O pacto na encruzilhada
Ao lado do famaliá, o sertão conta histórias de pactos firmados diretamente com o Cão, o Tinhoso ou o Coisa-Ruim — alguns dos muitos nomes usados para não chamar o diabo pelo nome. Nos relatos populares, o encontro acontece à meia-noite, em lugares ermos como encruzilhadas e veredas, e o preço é sempre a alma.
Foi essa tradição que João Guimarães Rosa levou para Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956. O narrador, Riobaldo, vai às Veredas-Mortas para fazer o pacto e, a partir dali, ganha coragem para se tornar chefe de jagunços — mas passa o resto da vida em dúvida se o diabo realmente apareceu. Na obra, o inimigo Hermógenes também é chamado de pactário. Estudos acadêmicos, como o do psicanalista Tiago Ribeiro Nunes (UFG), mostram como o romance transforma a crença popular em reflexão sobre culpa, liberdade e poder.

Coronéis, poder e boatos
Por que esses boatos colavam justamente nos coronéis e fazendeiros? A resposta é mais histórica do que sobrenatural. No interior do Brasil, sobretudo na Primeira República, grandes proprietários concentravam terras, votos e influência política — o fenômeno analisado por Victor Nunes Leal em Coronelismo, enxada e voto, de 1949. Riquezas acumuladas com grilagem, violência, favores políticos ou simplesmente bons negócios eram difíceis de explicar para quem vivia na pobreza.
Atribuir a fortuna ao diabo era, ao mesmo tempo, uma forma de explicar o inexplicável e uma crítica velada: quem enriquece depressa demais, às custas dos outros, só pode ter feito um negócio com o Tinhoso.
Os encantados do rio
O sobrenatural no São Francisco não se limita aos pactos. Os remeiros e barqueiros contavam histórias de encantados como o Caboclo d’Água, a Mãe d’Água e o Minhocão. Para se proteger, as barcas levavam na proa as famosas carrancas, esculturas de rosto assustador que, segundo a tradição, afugentavam esses seres e os maus espíritos. Estudo apresentado na Unicamp em 2013 situa as carrancas primitivas na virada do século XIX para o XX.

Mito ou fato?
Documentado: a crença no famaliá e nos pactos foi registrada por folcloristas, como Saul Martins em 1950, e aparece em relatos orais do norte de Minas e da Bahia. O coronelismo como sistema de poder no interior também é amplamente estudado.
Lenda: não existe qualquer prova de que alguém tenha feito pacto com o diabo ou criado um famaliá. As histórias sobre coronéis específicos são boatos de tradição oral — por isso não citamos nomes de pessoas reais como “pactários”. O que essas lendas registram, de fato, é a desconfiança popular diante de fortunas e poderes concentrados.
Linha do tempo
- 1591 Primeira Visitação do Santo Ofício à Bahia; o estudo de Santana afirma que o “familiar” já era assinalado nessa época.
- Séc. XIX Barcas do São Francisco passam a usar carrancas na proa, segundo estudos sobre arte popular.
- 1949 Victor Nunes Leal publica Coronelismo, enxada e voto.
- 1950 Saul Martins publica “O famaliá” no Diário de Minas.
- 1956 Guimarães Rosa publica Grande Sertão: Veredas, com o pacto de Riobaldo nas Veredas-Mortas.
Conclusão
As lendas do coronel e do diabo dizem pouco sobre o inferno e muito sobre o sertão. Elas nasceram onde a riqueza era rara e o poder, concentrado, e serviram para explicar — e criticar — quem subia rápido demais. Do famaliá na garrafa ao pacto de Riobaldo, o diabo do São Francisco é, antes de tudo, um personagem da história social do Brasil.
Leia também a história real por trás da Loira do Banheiro e a origem do Curupira.
E você? Na sua família ou cidade, alguém contava histórias de pacto ou de famaliá?
Perguntas frequentes
O que é o famaliá?
É um diabinho da tradição popular, guardado numa garrafa, que traria riqueza ao dono em troca da alma. O nome vem de “familiar”, termo antigo para espíritos que servem a uma pessoa.
Como se faria um famaliá, segundo a lenda?
Chocando um “ovo de galo” ou o primeiro ovo de uma galinha preta debaixo do braço durante a Quaresma, segundo relatos registrados por folcloristas.
Grande Sertão: Veredas fala de pacto com o diabo?
Sim. O narrador Riobaldo tenta fazer o pacto nas Veredas-Mortas e passa a vida em dúvida se ele realmente aconteceu.
Algum coronel fez pacto com o diabo?
Não há qualquer prova. As histórias são boatos da tradição oral, que expressavam a desconfiança popular diante de fortunas e poderes concentrados.
Fontes e referências
- SANTANA, Pedro Lucas. O Famaliá (com citação de Saul Martins, “O famaliá”, Diário de Minas, 31 dez. 1950).
- SÁ, José Carlos. O capeta na garrafa. Banzeiros, 2026.
- NUNES, Tiago Ribeiro. Riobaldo Pactário: liberdade e predestinação. Revista UFG.
- CRISPIM, Regina; SANTANA, Rogério. A (des)ordem no sertão: violência e sobrevivência em Grande sertão: veredas. Signótica, v. 21, n. 1, 2009.
- SILVA JR., Luiz Severino da. Carranca vampira: a vitória da estética mercadológica. IX Encontro de História da Arte, Unicamp, 2013.
- LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. Rio de Janeiro, 1949.
- ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.
- Imagens: Wikimedia Commons (autores e licenças nas legendas).